Selo VII CNA

Uma Iluminada Iracema Guardiã

 

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba. Além muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema, a virgem dos lábios de mel”.

(Trecho de Iracema, obra de José de Alencar)

 

O selo do VII CNA evoca a história e a memória dos congressos anteriores ao passo que marca sua atual realização na capital cearense, revelando a cultura presente nos arquivos através do monumento da “Iracema Guardiã” e o “Sol” que a ilumina.

O raios solares lembram selos precedentes, inspirados na fulgurada criação da Executiva Nacional de Associações Regionais de Arquivologia, a ENARA, que adotava o astro-rei como marca. Mais ainda, o brilho traduz o epíteto de “Terra da Luz” atribuído ao Ceará que, muito além de uma questão climática ou de menção ao verão e às belas praias nordestinas, simboliza o marco histórico do pioneirismo cearense na abolição da escravatura ocorrido na então Vila do Acarape, hoje município de Redenção – CE, anos antes do assinar da Lei Áurea.

A “Iracema Guardiã”, por sua vez, é uma escultura das mais reconhecidas na cidade de Fortaleza. A índia, personagem literária do conterrâneo José de Alencar (1829-1877), retrata romanticamente a origem do povo cearense nas terras que hoje poeticamente são intituladas “terras alencarinas”. Ao mesmo tempo, como sugerem alguns estudiosos, o nome “Iracema” é um anagrama de “América”, o que a torna, para afora do estado nordestino, também representante da cultura indígena nacional e continental, nossas raízes.

Concebido pelo artista sobralense Zenon Barreto (1918-2002), o monumento, típico da arte moderna, teve uma interessante trajetória antes de se converter em verdadeiro cartão postal da cidade, segundo nos conta a socióloga Kadma Rodrigues. Esculpida em 1960, a “Iracema Guardiã” somente foi apresentada à Prefeitura de Fortaleza em 1964, no que foi preterida pelo governo militar por representar uma postura diametralmente oposta à imagem idealizada da vida familiar evidenciada pela outra estátua de Iracema do pernambucano Corbiniano Lins, inaugurada em 1965 na Praia do Mucuripe. A Guardiã, com sua nudez e posto de arqueira guerreira e vigilante, núncio da força feminina, contrariava à moral tradicionalista ora estabelecida.

O arquivo, mais que um guardião de memórias, tem a responsabilidade de dar acesso às mesmas. Servindo às administrações institucionais, arranjando e bem acondicionando documentos, dispõe-se como imprescindível equipamento cultural aberto ao pesquisador e público em geral. Recordando os acervos da ditadura, silenciados e resguardados (quando não, destruídos), a instigante imagem com pouco mais de seis metros sobreviveu à passagem do tempo e às mudanças de orientação política.

Em 1996, no centenário da obra Iracema, ela finalmente foi instalada no bairro Praia de Iracema, em um lugar privilegiado para ver e ser vista. O monumento foi restaurado em 2012, durante o período de 02 de maio a 30 de junho e inaugurada em 06 de julho do mesmo ano. Assim como na abertura dos arquivos, essas “memórias reveladas” fizeram por fim justiça ao artista e à sua obra que resguarda, sob a plástica de sua conformação, um importante documento histórico e, como tal, também passou pelo processo de restauração para que se preserve às gerações presentes e futuras.